Anglo-Catolicismo

O que é Anglo-Catolicismo?
Rev. Pe. Rodson Ricardo
E - mail: revrodson@hotmail.com 

Anglo-católico? Liberal? Evangélico?
A Comunidade da Natividade é uma igreja paroquial fortemente ligada à tradição católica anglicana. E embora acolhamos contribuições de outras tendências essa tem sido a que melhor define nossa identidade espiritual. Esta tradição é muitas vezes descrita como “anglo-católica” (em oposição a católico-romano) ou “Igreja Alta”, termo pelo qual também é conhecida em outros países. Mas o que significa tudo isso?

Os termos “anglo-católico” e “anglo-catolicismo” descrevem pessoas, crenças e práticas dentro do anglicanismo que afirmam os aspectos católicos, ao invés dos protestantes ou liberais/modernistas. Tais diferenças surgiram no decorrer dos séculos e é parte da história e do patrimônio comum do anglicanismo.

Diferenças de perspectivas
Dentro do anglicanismo, especialmente na Igreja da Inglaterra e nos Estados Unidos, vários termos são usados com freqüência – e às vezes de forma inconsistente - para designar as três principais tendências eclesiológicas anglicana: a “High Church”, ou “Igreja alta”; a “Low Church”, ou “Igreja baixa” e a “Brow Church” ou “Igreja larga”.

a) “Igreja Alta” é geralmente usada para descrever aquelas formas de anglicanismo influenciadas, em maior ou menor medida, pela tradição católica. O Anglo-catolicismo é freqüentemente identificado com essa variedade de organização e espiritualidade;

b) “Igreja Baixa” geralmente se refere aquelas formas de anglicanismo mais influenciadas pela tradição protestante. Entre elas podemos citar o primado absoluto das Escrituras, a salvação unicamente pela fé etc. Além disso, as “igrejas baixas”, embora mantenham o uso do Livro de Oração Comum, preferem formas menos organizadas de liturgia;

c) “Igreja Larga” é geralmente associada àquelas formas de anglicanismo que, ficando entre o “alto” e o “baixo”, enfatizam as adequações culturais e o primado da razão na vida da Igreja.

História da Tradição Católica
Uma das principais características do Anglo-catolicismo é a afirmação da continuidade essencial do anglicanismo com os primórdios do Cristianismo na Grã-Bretanha. Neste sentido suas origens encontram-se anterior inclusive a decisão do Papa Gregório Magno (590-604) de enviar Santo Agostinho de Cantuária (610) e seus monges, no século VI, para re - evangelizar os anglo-saxões, um processo praticamente concluído no século VII. Há, portanto, um reconhecimento da influência celta e monástica como parte importante do que é o anglicanismo. Nesse sentido o anglo - catolicismo nega que o anglicanismo seja um produto exclusivo da Reforma Protestante do Século XVIII.

Quando a Reforma Protestante eclodiu na Europa, seus efeitos chegaram à Inglaterra. Por caminhos tortuosos o Rei Henrique VIII (1491-1597) levou a Inglaterra a um cisma com Roma quando o Papa se recusou a declarar nulo o seu casamento com Catarina de Aragão. Apesar disso, Henrique manteve-se ortodoxo em teologia e liturgia, enquanto alguns reformistas (como o Bispo John Hooper) queriam seguir as reformas radicais de Genebra. Esse é um aspecto importante na história da Reforma Inglesa.

Além disso, todas as reformas foram suspensas, brevemente, durante o reinado da profundamente católica, Maria I (de 1516 a 1558), filha de Catarina de Aragão (1485-1536), que retomou a comunhão com Roma, como parte de uma campanha geral para acabar com a influência das idéias da Reforma na Inglaterra e no País de Gales. Esses conflitos políticos - religiosos acarretaram grande dor e sofrimento ao povo inglês, ameaçando inclusive a sobrevivência da Nação.

Conseqüentemente, quando a rainha Elizabeth I subiu ao trono Inglês, ela procurou seguir uma “via - média” entre o que ela , que ela teologicamente ortodoxa, imaginou ser o desejado entre os excessos de “Roma” (catolicismo) e “Genebra” (protestantismo). Assim nasceu a o “pacto elisabetano” e a promulgação de um único Livro de Oração Comum e de todas as convicções teológicas na Igreja da Inglaterra e, posteriormente, na Comunhão Anglicana. Isto marca o nascimento do “ethos anglicano” que foi defendida com profundidade pelo primeiro teólogo anglicano: Richard Hooker.

Toda a metodologia teológica anglicana se estrutura a partir do tripé de Hooker: Escritura – Tradição – Razão. O Rev. Richard Hooker viveu entre 1553-1600, em Londres. Ele foi ordenado na Igreja da Inglaterra e, posteriormente, nomeado pela rainha Elizabeth I como Mestre do Templo, tornando-o capelão da “Inns of Court”, uma parte fundamental do sistema de ensino jurídico Inglês. Depois de dez anos ele se mudou para uma paróquia país perto de Canterbury, onde, nos restantes cinco anos de sua vida, ele conseguiu pôr em marcha a sua magnum opus “As Leis da Política Eclesiástica”. Esta obra marcou profundamente o pensamento inglês, influenciado inclusive o surgimento do liberalismo de John Look (1632-1704) que a cita diversas vezes. A obra de Hooker foi a primeira defesa sistemática da doutrina da Igreja da Inglaterra após a separação com Roma e por isso ele é considerado o primeiro grande teólogo anglicano. Até mesmo o Papa Clemente VIII (1536-1605) ficou impressionado com seu trabalho.

A obra de Hooker é amplamente reconhecida por afirmar que a teologia anglicana é baseada na “Escritura, Tradição e Razão”, indo tão longe a ponto de criar uma analogia com um “banquinho de três pernas”. É claro que alguns podem dizer que uma metáfora melhor seria a tentativa de tentar equilibrar três bolas ao mesmo tempo. O malabarismo é complicado pelo fato de que, dependendo do teólogo, uma das bolas é geralmente maior do que os outros. Essa é a origem das correntes anglicanas. Evangélicos valorizam as Escrituras do que a razão ou a Tradição. Liberais enfatizam a razão e católicos a tradição, por entenderem que nela está implícita as Sagradas Escrituras como norma final e o correto uso da razão.

Há um longo rio católico no anglicanismo que partindo do testemunho do Arcebispo William Laud (1573-1645), martirizado pela defesa do anglicanismo, passando pela riqueza das obras do “teólogos Carolinos”[1][2], unindo-se ao “Movimento de Oxford”, deságua nos movimentos católicos dos dias atuais. Como característica desse movimento a defesa do caráter apostólico e ortodoxo da Igreja, num processo de ligação ininterrupta com os Doze Apóstolos.

Assim, em resposta ao Papa Leão XIII (1810-1903), que com a Bula Apostolicae Curae (1896), declarou inválida a sucessão apostólica anglicana sobre a perspectiva do Vaticano, os Arcebispos anglicanos de Cantuária e York imitiram uma resposta oficial, a Saepius Officio, mostrando que existe uma clara sucessão apostólica ininterrupta no sacerdócio anglicano e que o Episcopado histórico foi mantido nas ilhas britânicas desde os primeiros dias da Igreja, não tendo sido alterado nem mesmo durante os piores momentos da revolução protestante.

O Movimento de Oxford
Como um movimento identificável dentro do Anglicanismo moderno, o Anglo - Catolicismo originou-se entre um grupo de presbíteros e professores da Universidade de Oxford em 1830. Os três líderes mais conhecidos do chamado “Movimento de Oxford” foram: John Keble (1792-1866) Henry Newman (1801-1890) e Edward Jonh Pusey (1800-1882).

O movimento começou em 1833 como uma forma de protesto contra a interferência política do parlamento nos assuntos internos da igreja da Inglaterra. Em 14 de julho de 1843 Keble pregou o famoso sermão “A Apostasia Nacional” na igreja de Santa Maria, a Virgem, no interior da Universidade de Oxford.

Logo após este acontecimento, Keble, Newman, Pusey, e outros começaram a publicar a série de panfletos chamados de Tratados para os nossos tempos. Os membros do movimento tornaram-se assim conhecidos como “os Tractarianos”.

Diferentes visões sobre a igreja 
A pergunta central feita inicialmente pelo Movimento de Oxford, dizia respeito à natureza da Igreja. Havia duas formas de pensar a igreja naquela época: como uma instituição simplesmente humana ou como uma instituição essencialmente espiritual e invisível.

A grande realização do Movimento de Oxford deve-se a recuperação de uma terceira visão, solidamente enraizada nas Escrituras e nos Pais da Igreja, que vê a Igreja Santa, Católica e Apostólica como uma sociedade divina visível, fundada pelo próprio Cristo para levar adiante sua missão na terra até o fim dos tempos.

O Tratactarianismo enfatizou que Cristo delegou a autoridade eclesiástica aos seus apóstolos, e seus sucessores, os bispos. Assim, uma marca essencial da igreja católica é a presença das três ordens: bispo, presbítero e diácono, em sucessão apostólica. A Igreja Católica é encontrada, em sua completude, naquelas denominações que historicamente mantiveram a sucessão apostólica e que professam à fé dos credos e dos grandes concílios ecumênicos. Por este critério, as três “grandes famílias católicas” são: a anglicana, a romana e a ortodoxa.

A restauração da liturgia 
Às vezes os visitantes católicos romanos observam como é similar nosso culto ao deles (na verdade é como o deles se tornou similar ao nosso!). Mas nosso estilo da adoração não é simplesmente uma imitação das práticas romanas. Ao contrário, a liturgia anglo - católica tem sua própria história e tradição. De onde, veio e como se formou, então, essa tradição?

Nossa adoração não foi sempre do jeito que vocês vêem agora. Se você entrasse numa paróquia da igreja anglicana há dois séculos você encontraria provavelmente apenas uma Oração Matutina consistindo a liturgia. O oficiante não usaria nenhuma vestimenta litúrgica à exceção de uma simples batina preta. O ponto alto do culto seria o sermão, que poderia durar mais de uma hora. O templo da igreja seria “totalmente nu”, sem nenhum vitral, retratos ou imagens.

Os líderes do movimento de Oxford recuperaram o valor da Liturgia e dos Sacramentos como verdadeiros meios de graça pela qual os adoradores poderiam experimentar a beleza da santidade divina e serem trazidos à presença transformadora de Deus. Os anglo-católicos começaram a antigas formas de adoração, num processo gradual de redescoberta do estilo de culto existente na igreja pré - reformada, nos períodos patrístico e medieval.

Paulatinamente foram sendo re-introduzidas as tradições e práticas anteriores a Reforma: os altares voltaram a ser adornados com cruzes, velas e frontais; os padres retornaram o uso das casulas e os diáconos da dalmática; a eucaristia passou a ser celebrada pelo menos aos domingos e, em alguns lugares, todos os dias. O incenso, os sinos começarão a ser utilizados na abertura dos ofícios; com coros e leigos paramentados participando do processional, com tocheiros e cruciferários. A água benta e o incenso voltaram a ter função litúrgica. Os elementos consagrados, reservados para comunhão dos doentes, passaram a ser guardados em local especial (sacrário ou tabernáculo).

A prática da confissão individual foi restabelecida; as orações pelos mortos e as invocações aos santos voltaram a serem realizadas durante a adoração pública. A Virgem Maria teve sua importância recuperada, purificada dos excessos do catolicismo medieval e do radicalismo dos reformadores.

Cisões no Movimento Católico
Pelo menos desde a década de 1970, o Anglo - catolicismo tem sido dividido em dois campos distintos, ao longo de uma linha simbólica, que talvez possa ser rastreada até o século XIX, com a obra do bispo e teólogo Charles Gore (1853-1932).

O Movimento de Oxford tinha sido inspirado em primeiro lugar por uma rejeição do liberalismo teológico e do latitudinarianismo eclesial em favor da fé tradicional da “Igreja Católica Indivisa”, definida pelos ensinamentos dos Padres da Igreja e as doutrinas comuns da história ocidental e oriental igrejas cristãs durante os cinco primeiros séculos.

Até a década de 1970, portanto, a maioria dos anglo-católicos rejeitava os pressupostos teológicos e políticos dos modernistas, como o racionalismo, a negação dos milagres bíblicos, o acesso das sagradas ordem às mulheres etc. Além disso, os anglo-católicos, mesmo trabalhando com os pobres e marginalizados, viam com suspeita os partidos socialistas e revolucionários. Tudo isso mudaria com a publicação dos escritos de Charles Gore em 1890.

Gore havia sido formado no mais ortodoxo anglo-catolicismo e ela visto como um dos seus mais brilhantes teólogos. Por isso a publicação, sob sua direção, de uma serie de ensaios intitulada Lux Mundi deixou anglo-católicos, liberais e protestantes abismados. Na verdade, Gore fez um verdadeiro esforço para harmonizar a fé cristã com o mundo moderno, nos seus aspectos científicos, históricos, culturais, políticos e éticos. Para isso, precisou, no entanto, “relativizar” questões centrais como a Inspiração das escrituras e a validade dos Pais da Igreja. Dois aspectos merecem destaque: sua cristologia baixa, centrada na idéia de um radical e irrecuperável “rebaixamento” de Deus em Cristo (Kesosis) e sua ligação com o movimento socialista. Estava consolidado o surgimento do que antes era impensável: “um catolicismo liberal”.

A conseqüência disso é que o catolicismo encontra-se dividido: alguns enfatizando o primeiro termo e outros o segundo. No primeiro caso temos o que chamamos de “tradicionalista anglo-católico”, formado por aqueles que procuram manter a tradição e a doutrina anglicana em linha com o da Igreja Indivisa, priorizando a o catolicismo romano e a ortodoxia oriental. Assim temas como a ordenação de sacerdotisas e bispas ou homossexuais praticantes são vistos como incompatíveis com a fé católica. Por isso costumam se aliar com os evangélicos para defender os ensinamentos tradicionais sobre moralidade e fé. A principal organização anglicana a que se encontram filiados é a “Seguindo na fé” (Forward in Faith), presente principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

O trabalho de Gore, no entanto, que ostenta a marca do protestantismo liberal, abriu o caminho para uma forma “alternativa” de anglo-catolicismo. Assim, nos últimos anos, muitos anglo-católicos aceitaram a ordenação de mulheres ao presbiterato e episcopado, o uso da “linguagem inclusiva“ nas traduções da Bíblia e da liturgia e atitudes “inclusivas” em relação à homossexualidade, chegando inclusive a defenderem a ordenação de clérigos monogâmicos. Além disso, defendem inexistir uma real diferença entre católicos, protestantes ou liberais. Esses segmentos geralmente se referem a si mesmos como “católicos liberais” ou “progressistas”. A principal organização que os representa é o “afirmando o catolicismo” e a “sociedade para os padres católicos” do atual Arcebispo de Cantuária, Rowan Willimas.
Há ainda uma terceira vertente, embora insipiente. Trata-se de uma “via média” entre os dois extremos do catolicismo atual. Seus representantes criticam tanto o liberalismo quanto o conservadorismo e buscam desenvolver as idéias de um movimento teológico do catolicismo romano do século XX: a Nouvelle Théologie do padre Henri de Lubac (1896-1991). O principal representante desse grupo é o teólogo inglês John Milbank. Os trabalhos de Milbank e outros dentro desta vertente têm sido fundamentais para a criação de um movimento ecumênico (embora predominantemente anglicano e Católico Romano), chamado de “Ortodoxia radical” que busca recuperar a relevância do pensamento cristão na cultura e na sociedade.

Existem também aqueles anglo-católicos que perderam a pensam que o processo de liberalização no anglicanismo já foi longe demais e que é incontrolável. Por isso deixaram a comunhão anglicana embora tenham permanecido fiéis a sua doutrina e liturgia: são os “anglicanos confessantes”. É o caso da “Comunhão Anglicana Tradicional” – TAC, presente em quase todo o mundo, inclusive na América Latina e que se encontra num processo avançado de volta para o Catolicismo Romano.

No Brasil o anglo-catolicismo nunca teve de fato grande expressão. A única tentativa disso foi feita pelo então Rev.Salomão Feraz, energicamente reprimida pelo episcopado da época. Os motivos para isso foram o forte víeis protestantes dos primeiros missionários norte-americanos e a hegemonia do liberalismo desde metade do século XX. Neste sentido o predomínio dessa vertente acabou impedindo o surgimento de uma tradição realmente católica no país, gerando um estranho amálgama de protestantismo liberal e catolicismo da TL.

O ser católico
Uma questão que vem sido debatida há séculos é qual a natureza precisa do catolicismo. Esse tema tem sido muito debatido inclusive no interior do anglo-catolicismo. De acordo com as Igrejas Ortodoxas Orientais e as Igrejas Orientais Ortodoxas, Anglo-católicos - juntamente com os Velho-católicos e luteranos episcopais - geralmente apelam para o “cânone” (ou regra) de São Vicente de Lerins (445): “Católico é aquilo que sempre foi crido, por todos, em todos os lugares”.

Embora possam existir diferenças pontuais sobre o caráter do catolicismo os anglo-católicos o compreendem como a determinação positiva da essência mesma do cristianismo. Nas Palavras do teólogo Karl Adam (1876-1966) o catolicismo é “a afirmação integral dos valores, a abertura ao mundo no sentido mais englobante e mais nobre, o casamento da natureza com a graça, da arte com a religião, da ciência com a fé, a fim de que Deus seja tudo em todos”.

Neste sentido uma questão séria para os anglo-católicos é a interpretação e o valor dos “Trinta e Nove Artigos de Religião”, publicados no século XVII. É verdade que, neste documento histórico, é feita distinções entre anglicanos e católicos romanos sobre pontos importantes da doutrina. Não é, portanto de se estranhar que os setores evangélicos o utilizem como prova do “caráter protestante” da igreja. Duas coisas merecem destaque: em primeiro lugar não há em nenhum lugar dos Trinta e Nove artigos menção a palavra “protestante”. Além disso, esse documento não pode ser considerado uma espécie de “confissão de fé protestante” como foi a luterana e a reformada. Mais tão somente garantir a unidade espiritual da nação, livrando-a dos radicalismos de Roma (tridentinos) e Genebra (Puritanos).

Por isso os artigos foram intencionalmente escritos de tal forma a estarem abertos a uma variedade de interpretações tanto protestantes (arminianos e calvinistas) quanto católicas. Por tudo isso os anglo-católicos têm defendido as suas práticas e crenças são coerentes com seu espírito. No entanto, alguns acreditam que devido ao seu “tom áspero”, eles simplesmente deveriam ser suprimidos como fonte de doutrina, garantindo-lhes apenas a importância histórica, o que de fato acabou acontecendo na maioria das províncias da Comunhão Anglicana. É consenso inclusive entre os evangélicos que o “Quadrilátero de Lamberth” é a melhor síntese da unidade necessária a todas as tendências anglicanas.

O Quadrilátero tem servido de base dogmática para a unidade interna e externa de nossa Comunhão e afirma quatro crenças essenciais:

(1ª) A importância da Revelação profética. “Cremos que as Sagradas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação”. Toda nossa doutrina e liturgia estão baseadas e fundamentadas na Bíblia: Cremos no Primeiro e no Segundo Testamento. Ao afirmarmos isso destacamos: a) a continuidade de nossa Igreja com a tradição profética semítica, a supremacia do texto bíblico sobre as autoridades humanas e a negação do enfoque fundamentalista bíblico;

(2ª) A continuidade Apostólica. “Os Credos Apostólico e Niceno – Escritos no tempo da igreja indivisa, constituem a confissão normativa da fé católica que preservamos ainda hoje”. Somos uma igreja histórica, herdeira de uma Tradição de 2000 anos. Consideramos-nos uma parte importante da Igreja de Cristo, mas não a sua totalidade;

(3ª) A realidade da graça divina. “A Igreja Anglicana professa o Batismo e a Eucaristia como legítimos sacramentos diretamente ordenados por Cristo, sendo eles sinais eficazes da graça e da boa vontade de Deus para conosco.” A Igreja Anglicana é uma igreja sacramental. Os sacramentos são sinais externos e visíveis de uma graça divina interna e espiritual. Os sacramentos expressam nossa crença na natureza sacramental do universo e da vida, significando que Deus está presente e atuante na criação em todos os seus aspectos. Para nós Cristo é o maior dos sacramentos. Há dois sacramentos principais: o Santo Batismo e a Santa Eucaristia e outros cinco, chamados também de sacramentos menores ou ritos sacramentais (Crisma, Ordem, Matrimônio Reconciliação e Unção dos Enfermos) que testemunham a presença divina em nossas vidas;

(4ª) A necessidade de uma comunidade de fé. “Professamos que a autoridade transmitida por Cristo aos apóstolos e por esses aos seus sucessores (incluindo nossos bispos) é, ao mesmo tempo, garantia e expressão da universalidade e apostolicidade da Igreja”. Para nós a fé não é uma atitude egoísta e solitária. A fé cristã se fundamenta no amor ao próximo e na vida em comunidade. Toda comunidade precisa de líderes. Nossos líderes são os bispos. Na Tradição Anglicana a autoridade é descrita como um círculo, onde o poder flui de fora para dentro. Nosso líder mundial é o 105º Arcebispo de Cantuária, sua Graça Rowan Williams, mas ele não tem autoridade legal fora de sua Província. Ele serve como guia espiritual e símbolo da unidade, e, embora, entendamos que seja necessário a existência de um primado universal, ele não é “nosso Papa”. Além disso, na nossa tradição os leigos também têm participação em todos os níveis das igrejas anglicanas: eles escolhem seus bispos e padres e participam do dia a dia de suas comunidades. As mulheres também participam do ministério da igreja, podendo serem inclusive ordenadas ao diaconato na maioria das províncias.

Há um conceito importante para compreender o anglicanismo: inclusividade. Por exemplo, a questão da confissão sacramental particular. Embora os sacerdotes anglo-católicos incentivem e pratiquem esses atos em suas comunidades, como fazem seus irmãos romanos e ortodoxos, não tornam isso um elemento central de sua doutrina, preferindo seguir o aforismo clássico anglicano: “todos podem, alguns devem, ninguém é obrigado”.

Um aspecto central, porém é a crença na natureza sacramental do sacerdócio, no caráter sacrifical da Missa e a presença real de Cristo no pão e no vinho consagrados da Eucaristia. Para os anglo-católicos é eucaristia é o coração da vida cristã.

Muitos anglo-católicos também incentivam a vida monástica e o celibato sacerdotal. A maioria dos anglo-católicos também encoraja a devoção à Virgem Maria, Especialmente sob o título de Nossa Senhora de Walsingham, por entender que esse é um elemento constitutivo da tradição católica. Há, porém formas variações de intensidade e estilos entre eles.

O mesmo deve ser tido com relação às práticas eucarísticas e paramentos. Se é verdade que todo anglo-católico utiliza paramentos e utensílios na celebração eucarística (casula, capa, velas, crucifixo, turíbulo etc.) a forma e a intensidade varia conforme a comunidade. Alguns celebram na forma moderna do Livro de Oração Comum (1979), outros preferem a versão clássica de 1928 e alguns a antiga forma Tridentina, ou mesmo o “Rito de Sarum”, base de toda liturgia anglicana.

As principais características de uma espiritualidade “Elevada” (High-Church)
1. Uma visão elevada da adoração de Deus. O Anglo-Catolicismo sempre enfatizou o a importância da reverência, do temor e do sentido de mistério diante do Sagrado, perante o qual até mesmo os anjos do céu cobrem seu rosto;

2. Uma visão elevada da criação. Ao mesmo tempo, nós nos deleitamo-nos na beleza da criação divina. A visão anglo-católica do mundo é altamente sacramental, vendo os sinais da presença e da santidade de Deus em tudo que ele fez. Na adoração, nós recolhemos o que há de melhor na criação: arte, arquitetura, música, poesia, incenso, flores e cores etc;

3. Uma visão elevada da encarnação. Nossa salvação começou quando Cristo fez morada no ventre da Virgem Maria. Cremos que Deus tornou-se realmente humano, a fim de que, por meio dEle, a humanidade pudesse tornar-se divina;

4. Uma visão elevada do sofrimento. O Anglo-Catolicismo olha não somente a encarnação de Cristo, mas também a sua paixão. A imagem de Jesus na cruz nos lembra da profundidade e do horror do pecado humano, e do alto preço que Deus pagou pela nossa redenção. A espiritualidade anglo-católica envolve um continuo processo de mudança do “pecado” à “santidade’, do “mundo” para “Deus”. Para os anglo-católicos o sacramento da penitência é um recurso indispensável nesse processo;

5. Uma visão elevada da Igreja. Nós escolhemos compartilhar a vida do Cristo, morto e ressurreto. Esse processo começa com nossa incorporação em seu corpo com o batismo e continua durante toda nossa existência. Assim, nós não consideramos a Igreja Católica (Universal) nem como uma instituição de origem simplesmente humana, nem como uma associação voluntária e invisível de crentes individuais, mas como um mistério maravilhoso, um organismo super natural, cuja vida flui entre seus membros através de sua cabeça, Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo.

6. Uma visão elevada da comunhão dos santos. A Igreja, além disso, consiste não somente de todos os cristãos vivos na terra (a Igreja militante), mas também naqueles fiéis que continuam a crescer no conhecimento e no amor do Deus, e nos santos no céu, que já alcançaram o término de sua jornada (a Igreja triunfante). Nós temos a comunhão com todos os que vivem em Cristo. No interior dessa comunidade destaca-se a figura da Bem-Aventurada Virgem Maria, mãe do Senhor e da Igreja. O Anglo-Catolicismo afirma também a legitimidade de orarmos pelos mortos, e de pedir aos santos no céu que nos ajudem com suas orações.

7. Uma visão elevada dos sacramentos. Nós acreditamos que Jesus Cristo nos comunica realmente e verdadeiramente sua vida, presença, e graça por meio dos sete sacramentos. Dois desses são destacados. O Santo Batismo estabelece nossa identidade uma vez por todas, como crianças de Deus e herdeiros do Reino do céu (embora esteja em nós a liberdade para escolhermos aceitar ou repudiar essa herança). E a Santa Eucaristia, onde Cristo tornar-se realmente presente no santíssimo sacramento do seu Corpo e Sangue. A adoração eucarística é assim um componente integral da espiritualidade e da devoção anglo-católica.

8. Uma visão elevada das Sagradas Ordens. Desde os dias do movimento de Oxford, o anglo-catolicismo afirmou que o tríplice ministério dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos em sucessão apostólica é um presente de Deus. A validez de nossos sacramentos e a plena pertença à Igreja Santa, Católica e Apostólica depende da manutenção deste dom divino. Por essa razão, as inovações que ameaçam a autenticidade de nossas ordens apostólicas devem ser resistidas a todo custo.

9. Uma visão elevada de Anglicanismo. Nós afirmamos que as igrejas anglicanas são verdadeiramente parte da Santa Igreja Católica de Cristo. A vocação profética do Anglo-Catolicismo consistiu precisamente em testemunhar a catolicidade do Anglicanismo.

Conclusão
Mas nem tudo é harmonia e tranqüilidade. Novos desafios se colocam aos anglo-católicos do século XXI: a necessidade de redescobrir o ardor missionário, de dar respostas a problemas contemporâneos como à crise de valores éticos e racionais, particularmente quando isso envolve temas polêmicos como a ordenação de sacerdotisas e bispas e o homossexualismo. Cabe-nos aceitar esses desafios na certeza que as Palavras de Cristo são, caminho, verdade e vida: “As portas do inferno não prevaleceram sobre ela”. 

***

[1][1] Pároco da Comunidade Anglicana da Natividade- Natal/RN.
[2][2]. “Teólogos carolinos” é o nome dado a um grupo de influentes teólogos anglicanos, que viveu durante o reinado de Carlos I e após a Restauração, responsáveis pela “Idade de ouro da teologia anglicana”. São eles: Lancelot Andrews (1555 - 1626); John Cosin (1594 - 1672); Thomas Ken (1637 - 1711), Thomas Espadilha (1635 - 1713); Jeremy Taylor (1613-1667); Herbert Thorndike (1598-1672) e o próprio William Laud.